O Bairro Alto é a zona de Lisboa onde o relógio decide mais do que o mapa. As ruas formam uma malha regular — direitas, estreitas, traçadas muito antes dos carros e invulgarmente ordenadas ao lado do emaranhado de Alfama. De manhã, essa malha ajuda mesmo. Ao anoitecer as mesmas ruas passam a ser dos bares lá de baixo, e uma carrinha deixa de ter onde estar.
Carregar aqui é atividade de manhã. Não é preferência, é limite prático. Entre as oito e a uma, mais coisa menos coisa, as ruas estão calmas, as entregas circulam e uma carrinha consegue ficar parada tempo suficiente para servir de alguma coisa. À tarde os restaurantes recebem as suas próprias entregas, e depois de escurecer a pergunta deixa de ser onde estacionar e passa a ser se se consegue sequer passar. Boa parte da malha fica também dentro das restrições de acesso dos bairros históricos, pelo que se aplica o mesmo cartão de acesso e o mesmo dístico anual de cargas e descargas do resto da cidade antiga. Marcamos o Bairro Alto para o primeiro horário do dia. Um pedido para começar depois do almoço é coisa que contestamos, não que aceitamos em silêncio.
Os prédios são fundos e finos, muitas vezes um apartamento por piso, quatro ou cinco pisos, sem elevador. As escadas costumam ser direitas e não em caracol, o que parece pormenor e não é: um lanço direito permite que duas pessoas subam um roupeiro inteiro em vez de o andarem a rodar num patamar.
A complicação está ao nível da rua. Os rés-do-chão são quase sempre bares e lojas, por isso a entrada dos moradores é frequentemente uma porta única entalada entre duas montras, com um corredor estreito atrás. Um móvel que subiria as escadas sem problema pode ficar preso logo nessa primeira porta — vemos isso por vídeo, tanto de fora como de dentro.
Chegamos cedo, estacionamos o mais perto que a rua deixar e trabalhamos de seguida, sem interrupções. Partir uma mudança do Bairro Alto pela tarde é a maneira mais fiável de transformar um trabalho simples num trabalho caro.
Do lado poente, o parque mais próximo é o da Calçada do Combro. Muitas ruas são de sentido único e várias são pouco mais largas do que a carrinha, por isso sair em marcha-atrás não é opção depois de entrar — o percurso de entrada e saída decide-se antes do dia, não à esquina.
Se o seu prédio fica num dos troços pedonais, diga-nos cedo. Muda o sítio onde paramos e a distância a percorrer a pé, e ambas as coisas estão no preço.
Uma mudança de manhã no Bairro Alto é uma mudança normal. O mesmo trabalho a começar às quatro da tarde precisa de mais tempo, mais caminhada e por vezes de um terceiro par de mãos — e isso aparece no valor.
O meio da semana ajuda pela mesma razão. As noites de quinta e sexta começam mais cedo do que se imagina, e um sábado de manhã passa-se a contornar a noite anterior. Se as datas derem para mexer, de segunda a quarta é a combinação mais calma e mais barata neste bairro.